quinta-feira, 17 de março de 2011

Querido Pai:

Um dia estava a falar com um amigo meu, que me perguntou sobre a minha familia. Falei-lhe do meu irmao, em primeiro lugar, como falo sempre. E depois dos meus pais. Gosto sempre de contar a vossa historia , por-lhe uns floreados por cima e toda a gente se baba. Se calhar e por isso que sai assim, tao romantica incuravel, porque a vossa historia era sempre a minha preferida. Falei-lhe da mama e como e tao energetica e dinamica e nao para quieta e toda "emocoes, emocoes, emocoes" e depois se transforma numa montanha-russa sentimental. Disse-lhe que a mama fala muito e e uma mulher furacao. Depois disse-lhe que tu eras exactamente o oposto: o oposto harmonico e organico da minha mae-fogo. Disse-lhe que tu eras terra. Que tinhas uma mente mesmo racional e que sabias muito mais da vida do que deixavas transparecer.
O meu amigo perguntou-me com qual dos dois e que eu era mais parecida e eu disse-lhe que apesar de toda a gente achar sempre que eu sou a mama, tenho muito de ti que muito pouca gente ve e conhece.

Ando a ler uma peca chamada "On love", que e uma dissertacao teatral sobre o amor e sobre as formas como se expressa. Ha uma parte na peca em que sao pais e filhos a contarem historias sobre a relacao deles e quais sao os momentos que mais se lembram da relacao deles... Eu pus-me a pensar sobre historias nossas, de nos os dois, e veio-me a cabeca logo uma em particular...
Lembro-me que, como adolescente, nunca fui muito de falar do que se passava em casa, muito menos contigo. Contigo era forte, ou tentava ser. Mas um dia, no quinto ano talvez, estava eu no meu quarto, a chorar, e a escrever uma carta para a minha melhor amiga na altura que dizia qualquer coisa do genero: "Querida Sofia: Tu es a minha melhor amiga mas a Manela diz que tu tambem es a melhor amiga dela. Fiquei muito triste com isto e queria saber quem e que e a tua melhor amiga afinal! Tani". Tu entraste no meu quarto sem bater e perguntas-te o que e que se passava e eu respondi que estava tudo bem e fugi para a casa de banho. Claro que deixei a carta na secretaria e claro que tu deves ter lido. Na manha seguinte, quando me levavas ao colegio, ia eu com a carta no bolso, e o coracao muito nervoso sem saber como ia lutar por esta melhor-amiguice. Antes de me deixares a porta, tu disseste "Tania, as pessoas podem ter muitos amigos ao mesmo tempo. Mesmo melhores amigos. Nao quer dizer que gostem menos ou mais de ti". Sai do carro sem dizer palavra, envergonhada demais por teres lido o meu drama de vida mas nao entreguei carta nenhuma a Sofia... Nesse dia aprendi que as pessoas nao sao de ninguem e o coracao das pessoas e muito grande - provavelmente uma das licoes que mais respeito hoje e que muitos adultos deviam aprender.

Tenho a tua pele, um tom de filha da terra e, comeco a perceber aos poucos, o teu prazer pelas coisas simples. Pelos silencios e pela natureza. As tuas idas ao cafe, so para leres o jornal com o avo em silencio, que a mama tanto goza, sao os nossos pequenos almocos, de caneca em punho e olhos nos campos, ou os fins de tarde na praia ja quase deserta com os livros do mundo, porque eu comeco a querer ser cidada do mundo, como tu.

O que quero dizer hoje e que sou tua filha. Sou muito tua filha. Mas muito pouca gente te conhece a ti, como muito pouca gente conhece a filha-Couto da Tania. Mas acho que e isso que gosto tanto da nossa relacao, e quase um segredo.

Gosto muito de ti,

a tua Filha.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Time to send someone away.

Fiquei surpreendida com a capacidade que ainda tenho de me surpreender - quanto a isso não me posso queixar.

Olhei-o nos olhos azuis, tão parecidos com os meus, e li-lhe aqueles lábios desenhados que me tinham atraído desde o momento em que o ouvi rir. A minha irmã tem os lábios assim, como desenhados na cara de uma boneca de porcelana e eu sempre lhe invejei a lotaria genética que não me tocou a mim. Ele tem os lábios da minha irmã e os meus olhos. Os lábios da minha irmã desenharam no ar um conjunto de palavras que me caíram como um estalo numa criança distraída. A Criança deu por si a verter lágrimas sem saber porquê e a gritar a injustiça do golpe que não fez nada para merecer. Os olhos azuis decidiram que era o seu direito decidir e o meu azul que se conformasse. A Criança pegou no orgulho ferido de Mulher, disse adeus e saiu porta fora, em direcção a uma outra Mulher que lhe ensinasse a lamber as feridas. Ou mais importante, que lhe explicasse porque é que as feridas lá estavam.
A outra, a amiga e mãe e irmã mais velha, todas encontrada numa Australiana energética que se fez família em três tempos, sentou uma Eu confusa e explicou uma coisa ou duas sobre o seu entendimento de relações. Eu engoli, levei com outras quantas chapadas que me fizeram bem e tirei as minhas conclusões. Embrulhei aquilo tudo e levei para a cama, agora metade vazia, enquanto ouvia o John Mayer a cantar na minha cabeça "Our love was confortable and so broken in".

Nunca o tinha escrito porque não o queria romantizar. Porque tinha a noção de que todos os que tinham passado pelo meu livro antes, tinham sido feitos personagens mais heróicas do que verdadeiras e ele não ia durar muito nesta história. Ele não fugiu quando lhe pus todas as placas do "run as fast as you can and don't ever look back" mas "ele não vai durar muito". Ele segurou-me a mão quando o mandei embora vezes sem conta mas "ele não vai durar muito". Ele quebrou, pedra a pedra, o mural que construí para que não vissem por detrás da feminista hirta mas "ele não vai durar muito". O medo de perder bloqueava a ideia de sequer o ter e não me apercebi que já tinha pisado essa linha à alguma tempo. Eu já não estava em controlo de nada do que se passava ali mas o meu coração racional continuava a gritar que sim. A gritar tão alto que quando o estalo dado pelos lábios desenhados o calou, eu não soube para onde me virar.

O menino dos olhos quase tão azuis como os meus e os lábios desenhados foi feito personagem. A vida aconteceu, como acontece sempre, e o capítulo foi encerrado antes de a autora se aperceber que ele era herói. - Estava na altura de seres feito personagem principal. Por um capítulo que seja.




terça-feira, 1 de junho de 2010

O despertar da insanidade.

Finalmente a minha pele adopta a tonalidade que me relembra que sou filha da terra e do mar. As amarras que me deixavam já marcas em todos os músculos soltam-se e deixam-me sentir o vento a acariciar-me os poros e a dar-me as boas vindas: bem-vinda a dimensão a que pertences. Bem-vinda ao mundo onde tudo faz sentido outra vez, onde a voz soa a verdade, onde o corpo se prende a terra e caminha com a segurança. A simplicidade que outrora me enclausurava e assustava, agora mostra-me a complexidade da sua beleza. E nunca antes tinha notado como é fácil extrair desta sitio a essência, sem se pedir muito em troca. Porque está em todo o lado: É a beleza pura do ser humano, uma peça constante em que o encenador desenhou o íntimo da existência humana.
As palavras derretem-se na minha boca, saboreio cada silaba conhecida mas um gosto diferente desta vez. O mundo está à minha disposição, sinto o poder do futuro nas minhas mãos e consigo ver as cores da fotografia que projecto a ganharem corpo. As ânsias, os medos e os planos conjugam-se e envolvem-me numa teia que me prende ao caminho que tenho de construir agora.
E enquanto películas de amores passados, revividos no agora, e cheiros de uma felicidade que volta ao fim de tanto tempo me acordam do estado de dormência sem vida que me foi até agora impingido, eu volto, visto o meu vestido branco, ato a metade de mim que me faltava a tornozelo e danço na maresia acompanhada pelo amor elevado ao extremo.

domingo, 16 de maio de 2010

Delirio do amor.

O meu corpo reclama, todos os tendoes gritam comigo e exigem alguma coisa que nao lhes posso dar. Esta a avariar-se e eu continuo a mandar liquidos e pequenas pilulas la para dentro na esperanca que ele se contente, so ate eu encontrar uma solucao mais permanente. Mas nao, o meu corpo nao esta em sintonia com a minha alma e arrasta-a para baixo com ele. Unem-se os dois e nao ha saida: Ligam o projector e eu nao tenho poder nenhum. Eu, que ja nem existo, quem sou eu se nao tenho a minha alma nem o meu corpo? Ligam o projector e comecam as imagens a passar-me diante dos olhos. As imagens que sou obrigada a ver e nao quero.
Eu, numa caixa muito colorida e patrocinada por imensas marcas registadas. Um produto para satisfacao do consumidor, ali a espera de ser comprado e usado a bel-prazer de quem me quiser manusear.
Eu, sozinha num apartamento frio numa qualquer cidade fria que me exige energias naturais que nao tenho e tem que ser substituidas por uma artificialidade que habita no meu corpo e responde ao meu nome.
Eu, sem saber abracar com coracao, sem saber amar sem pedir nada em troca, sem saber ser filha do Amor.
Eu, sem raízes em lado nenhum, sem saber do que materia sou feita.
Eu, raptada por um estranho qualquer que me diz que vai ficar tudo bem enquanto eu grito na mala do carro por alguem que me venha buscar. Ele continua com o pe a fundo no acelerador e diz-me que ja nao posso voltar atras e ninguem vai saber onde estou.

Acordo a solucar e afinal nao tenho amarras nos pulsos nem nos tornozelos. Deito agua na cara, olho-me no espelho e o sol ja nao brilha no meu cabelo nem há vida nos olhos.
O fado toca la ao longe a lembrar-me de noites quentes com cheiro a sardinhas assadas, vozes muito altas e palavras cheias e familiares. O meu espirito quer voar para la mas o corpo nao deixa, esta presa nesta corpo doente, intoxicado por este ar sem sol, sem vida, sem cor. Levanto o olhar e vejo o Destino a sorrir. Olho-o nos olhos e imploro-lhe que me devolva o espirito que me roubou e leva ao peito aprisionado numa caixinha. Ele ri-se perdidamente, num delirio que me rasga qualquer esperanca de voltar a ser e caio atordoada no chão. Ao fundo, toca o fado, cantado a rir e penso que tudo isto pode nao passar de um delirio do amor.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Frames

Eu apaixono-me muitas vezes e com muita facilidade, embora conheça muito pouco do Amor. A verdade e que me apaixono muitas vezes e numa dessas vezes, o menino da minha paixão, ensinou-me a tirar fotografias e a resolver o resto do enigma com as imagens que temos. Foi uma boa lição.
Apaixonei-me recentemente por certos pormenores teus. Apaixonei-me pela tua ingenuidade que teimas em querer disfarçar quando e exactamente a tua parte mais bonita. Tens-la nos olhos azuis muito claros quando observas as cenas e te vejo pensar nas tuas falas interiormente. Uma fotografia. Tens-la quando falas da tua família, quando tentas, a medo dar as tuas ideias, sempre no medo de cair no ridículo. Outra fotografia. Eu rio-me da tua maneira de falares, da maneira como gesticulas muito como se isso fosse sacar palavras mais sabias e tu olhas e não percebes do que me riu.
Apaixonei-me pelos teus braços fortes que me abraçaram enquanto me comentavas a suavidade da pele - deve ser uma coisa latina. Apaixonei-me pela maneira com que baixas-te a guarda para me falares do que mais te feria o coração. Apaixonei-me quando no dia seguinte sai de tua casa a sentir o corpo marcado por ti.
Passei algum tempo a tentar perceber o que correu mal aqui, para onde foi a tua ingenuidade pela qual me apaixonei e quem e este homem novo que me continua a prender o olhar. E hoje, enquanto te tirava mais uma fotografia enquanto te preparavas para dançar - tão melhor que eu - percebi. As minhas fotografias não são suficientes, as perguntas que me fizeste não foram suficientes.
Estavamos ambos a deriva a procura de um porto seguro que nos soubesse a casa e vimos nos braços um do outro, completos estranhos a tentar fazer amor como velhos amantes. Não funcionou, não conheces as minhas mares, eu não compreendo o teu espaço. E agora, e tarde demais?

quinta-feira, 18 de março de 2010

"Show the world that I can make it"

Era o meu ultimo dia com 13 anos. Estava a sair da fase parva de "quero usar roupas hip-hops (mesmo que nao gostasse de ouvir) e sair a noite (que noite? Nao te vao deixar entrar em lado nenhum!). A vida e minha!". Era um domingo muito solarengo, o primeiro de Marco e eu andava louca pela casa (numa loucura contida, porque ainda nao era fixe ser-se louca a frente dos pais) porque no dia seguinte ia na minha viagem de finalistas, fazia 14 anos e tinha feito uma aposta com o meu grupo de amigas que naquela viagem ia comecar a namorar com o meu melhor amigo (que tambem fazia 14 anos, o meu deus, os astros estao alinhados para nos!). Mal eu sabia que a minha vida ia mudar radicalmente nessa tarde solarenga, em que fazia malas e fantasiava com o jogo de "verdade ou consequencia" na parte escura do autocarro que faria o amor da minha vida beijar-me (de lingua). A minha mae aproximou-se (arrancando-me do momento em que ele me dizia "estive sempre a tua espera.") para me dizer que ia dar-me a minha prenda de anos antes da viagem. Dentro de um saco todo colorido estava um perfume, DKNY Be Delicious (ainda hoje um dos meus perfumes de eleicao) e CD - a banda sonora do musical Fame. Berrei, mandei-me aos bracos da minha mae (continuava a nao ser fixe demonstracoes de afecto, mas ninguem viu) e berrei mais um bocado. A minha mae ria-se e contava-me como teve que o mandar vir de Londres porque nao havia a venda em lado nenhum. Cerca de um mes antes, a minha mae tinha-me levado a ver a producao portuguesa do Fame e o meu coracao andava num rebolico em que so pensava "quem me dera, quem me dera" enquanto a minha mae me dizia "so la fora Tania...ca nao ha nada disso." Deu-me o CD para me acalmar o coracao, sabendo bem que so me ia drogar mais. Depois disse quase a medo "tem mais uma coisa para ti...". Olhei para dentro do saco e la estava, num canto, um recorte de jornal: "Aladdin Jr - O Musical. Audicoes para jovens artistas. Espectaculo a apresentar no teatro Rivoli". Demorei algum tempo a digerir.
Fui a audicao, foi a pior prestacao da minha vida, a coreografa era a actriz principal do "Fame" (MAE, ERA ELA, A CARMEN! SIM, DO FAME! FALOU COMIGO!), o director musical fez-me cantar escalas musicais quando eu nem sabia a diferenca entre "do" e "seminima" (true story).
Umas semanas depois, enquanto tomava banho, o meu pai deixou-me um post-it na porta a dizer "Entras-te".
Naquela tarde solarenga de Marco a minha vida estava escrita para mim: Ia namorar e mais tarde casar (no dia do nosso aniversario, claro) com o meu melhor amigo, viver no algarve e fazer surf, ser biologa marinha e tratar dos golfinhos do Zoomarine.
Cerca de cinco anos depois, nao trato de golfinhos, nao vivo no algarve, nao sei muito bem o que e biologia marinha e definitivamente nao namoro com o meu melhor amigo. Mas estou mais perto daquele sonho do "Fame" do que alguma vez me atrevi a sonhar.

* Este texto surgiu como resultado da descoberta do mesmo CD, a muito tempo esquecido.

domingo, 14 de março de 2010

What does stay?

My mam always said to me "Rosie, the man that steals your heart for the first time, will never give it back"...Well I don't believe it true. Cause he's still to come. My first man cannot be my real man cause he left me with nothing good to keep and that ain't no love. You know something? one day, He will come and he'll be a good man, with a good heart to give me a roof and to feed a family.

Im not saying i wanna leave this place, no, never, we could live right here. But I just want him to mean what comes out of his mouth, to say to me "don't worry Rosie, I'll always protect you", so I can tell my kids that their father was a great man...What? Yes, maybe, you're right, maybe I am being a bit stupid. Maybe that was my only chance and there will not be another man to come... It always happens, doesnt it? The man leaves the woman alone, it's not rare, is it? It's really easy, isn't it, to give in to passion? Because he is there...and you know they don't mean what they're saying, but they are saying it, and willing to give you something, that they call love but it really isn't...it's a fake one even if it seems real at the time... I'm smart enough to know it's a lie...Yes, I can do fine by myself.


 

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