sábado, 2 de maio de 2009

Piano clandestino

Entrou e encontrou-o ao piano, no mesmo canto de sempre, o esquerdo, deixando o direito para ela. Ele tinha aberto a porta só para a deixar entre-aberta, para ela demorar o tempo que sentisse. Ela, silenciosa, sentou-se no seu canto direito do banco e pousou os dedos nas teclas, muito ao de leve, por não lhe querer estragar a concentração. Dois corpos, sentados ao piano.


Os dedos dele passeavam por todas as teclas quase sem lhes tocarem e ela fechava os olhos, para lhe sentir a alma no som. E enquanto sentia as variações de Mozart para Muse e de Muse para Chopin, sentiu também um roçar de lábios muito ao de leve, tão leve que teve de abrir os olhos para o perceber (tão perto). Os dedos passaram das teclas para os lábios, levando consigo um rasto mudo dos si's bemóis e fá's sustenidos, e desceram, pulsações arrastadas pelo pescoço até parar no peito, sufocar o peito, apertar o peito contra ele, contra a sua alma musical, de si's bemóis e fá's sustenidos. Ela deixou-se cair, deixou-se ir, dando a descobrir o corpo que não era dele, nem tão pouco dela. Aliás, já não era de ninguém à muito tempo, talvez estivesse na altura. Ela deixou a roupa cair, e deixou-se ir. Dois corpos, deitados sobre o piano.











-O que é que aconteceu?

- Não sei. Não sei mesmo.

-Nem eu.

-Mas foi bom.

- Não estou apaixonada por ti.

- Nem eu.

-Então o que é que somos?

- Precisamos mesmo de rotular isto?

- Não. Gosto muito de ti.

- Também gosto muito de ti.





Dia seguinte, entrou, fechou a porta de mansinho e sentou-se no lado direito.





17 rascunhos alheios:

Joana Éme. disse...

O combinado é não esperar, que o nosso amor é clandestino.

Este arrepiou-me, ó safada.

Ana" disse...

Adorei :$
Sentimentos e música são uma combinação bastante interessante quando utilizada em textos. Gosto mesmo, está mesmo bonito.

Beijinho *

Marianinha disse...

Adorei este, acho que é o meu preferido!
(onde é que andas q ontem já achava que tinhas morrido? o.o)

*

Mara disse...

Sublime.
Estou ainda um pouco atordoada porque parece ter sido escrito por mim ou para mim.
beijinho

Joana David disse...

Este é dos que mais gostei, teus. Numa palavra, fantástico.

*

disse...

tão lindo. adorei.
:)

x Inês ( ? ) disse...

Encontrei-me em cada palavra , que texto divinal x)

Inês disse...

adorei :)
gosto dos teus posts.

Joana David disse...

Vim aqui, só para voltar a ler x) *

MafaldaMacedo disse...

apaixonante *

Xaninha disse...

A corpo empurra a alma e deixam-se levar, dois corpos, deitados sobre o piano, e não faz mal porque às vezes não é preciso um rótulo, é bom assim (:

está mesmo bem escrito, deixaste-me sem ar *

Joana David disse...

Parabéns, Tani :D Londres, Mundo, lá vais tu ;D

*

SaraPereira. disse...

Como eu gosto da diferença das tuas palavras, e como gosto de lê-las.
Como são? não sei, mas são boas.

Um grande texto com uma bela ilustração, sem dúvida! *

JO disse...

Estou sem palavras :)

JO disse...

Agora é que reparei que o nosso nome do Blog é semelhante :)

Távio :) disse...

Adorei o teu blog e os teus textos *-*
Vou seguir :D

JO disse...

Aqui foi o mesmo. :)

 

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