sábado, 27 de junho de 2009

Turn to stone.

Querido:
Acabo de embalar as miúdas, estão já a dormir espero e lembrei-me de te escrever para te actualizar. A Alexandra continua com a tua cabeça forte e a Sofia com o meu coração de manteiga. É engraçado ver como se sentem quase em sintonia, mais do que seria de esperar para as suas diferenças. E fico com muita pena que não as tenhas conhecido realmente, que não tenhas visto a Alexandra a crescer envolta no teu amor pelas palavras, histórias e pessoas. Que nunca a tenhas vista bailar jardins fora a rodopiar muito rápido até perder o equilíbrio e ficar perdida nos cabelos da cor do meu dourado, enquanto a irmã desenha, muito calada no mundinho dela, envolta nos teus caracóis e soturnidade, um gráfico que descreve o movimento giratório da desgraçada irmã que ri às gargalhadas da sua queda. Depois levanta-se, ainda a rir e a levantar o narizinho de porco (é teu, lembro-me agora) para a irmã que só quer ser deixada no próprio canto. Raio da miúda. Lembras-te que para ti tudo tinha que ser explicado pela lógica, pela ciência. Lembras-te o quanto isso me arreliava? Agora é mil vezes pior. Eu não sei muito bem que estranha mistura é que ela é, mas a verdade é que sente muito e depois não sabe o que fazer com tanto sentimento e então racionaliza. É uma combinação um bocado estranha, é verdade, mas eu nunca fui dada a números e portanto não compreendo o que é que ela se põe a fazer, enquanto a outra Criaturinha de espírito alegre e despreocupado constroi casas de madeira e sei lá eu mais o quê.
Sabes, elas já não estão iguais a fotografia que te dei da ultima vez. Já se passaram muitos anos e já não andam de vestidinhos curtos. A Sofia já não usa os cabelos soltos como teimavas em não usar e anda sempre com ele preso. É pena, ficava-lhe tão bem. A Alexandra continua igual, mesmo sorriso de menina, o mesmo nariz empinadinho e os meus cabelos de ouro. Se calhar devia tirar outra fotografia e levar-te à campa em breve. Assim podias ver nos olhos da Alexandra o mesmo brilho de menina, mas com uma maturidade que foi buscar sabe-se lá onde, uma força que te caracterizava o olhar e que me fez apaixonar por ti. Ias ver também um coração alegre e despreocupado mas um bocadinho torcido, às escondidas para ninguém ver (muito menos a mana, ela tem de dar o exemplo) e remendado pelo tempo. Mas tu bem sabes que o tempo não resolve tudo, tu mesmo mo ensinaste, o tempo precisa de ajuda de outros corações. Outros que não o meu e o da irmã. E mais corações virão, sinto-o no vento. Quanto à Sofia, ias ver uma mulher que não conhecias na menina. Uma mulher à primeira vista distante, mas com uma essência que tu lhe conseguirías captar. Sabes, ao contrario da irmã, ela não se dá logo, assim quase a troco de nada. Não, a Sofia é muito cautelosa. Ainda não é bem mulher mas para lá caminha. Ela aprende mais do que se apercebe com a irmã e fortalece-se graças a isso. Mas também aprende com as quedas (tantas quedas) que vai dando. Sabes, acho que a maior diferença entre ela e eu é que ela tem uma capacidade imensa de amar, amar muito, sem restrições, sem grandes mágoas. Elas existem, claro, como com toda a gente. Mas são depressa ultrapassadas pelo sentimento em si. Ainda tenho um bocado de medo que a queda grande, a verdadeira, esteja para vir, mas vou rezando para que não e torcendo que o coração dela seja como o teu era, amante incondicional.

Está decidido. Esta semana, quando te for levar flores novas, deixo-te uma foto recente delas. Vamos ao fotógrafo amanhã mesmo. Elas sentem a tua falta.


Um beijo

Da sempre tua


Victoria

16 rascunhos alheios:

Joana Éme. disse...

Leio os teus textos com as músicas dos títulos e dá-me vontade de chorar.
Gostei da nova forma de escrever, pores-te nos pés de uma mãe é tão comovente, meu bem. E quando falaste em campa não esperava, de todo.
Comovente - dá-me vontade de chorar. Mas isso sou eu hormonal, já sei ;p


Um beijo, dos grandes.
(Hás-de escrever séries que eu vou sacar todas as sextas-feiras.)

Débra disse...

O meu preferido, está tão porfundo que até se fica com as lágrimas nos olhos.

Marianinha disse...

(eu fiz como a mãe, fui ouvir a música para acompanhar, e também me dá vontade de chorar)
Está tão maduro, tão forte e tão encantador! Os sentimentos transbordam pelas palavras. Palavras que dançam e encantam, enquanto me fazem imaginar tudo o que descreves.
Está lindíssimo babe :)

Xaninha disse...

Oh mãe :')
Enquanto eu tiver o teu regaço para descançar e chorar (quase sem ninguém ver), enquanto a mana fizer equações malévolas que ninguém percebe e se esvair em lágrimas também e tu escreveres e te fizeres dona destas palavras (que me enchem o peito), mesmo ali, dentro de nós, a ler-nos, o meu coração há de ser capaz de resistir a todas as torcidelas e então eu dançarei para voces, minhas, de alma e coração, até perder o equilíbrio e cair em gargalhadas, e poderei dar, quase a troco de nada, porque é como se já tivesse tudo!
E a música soará em nós e sentir-nos-emos em sintonia!
Não sei explicar muito bem, mas este soube quase a memória.
E tu mãe, tens uma capacidade de amar que às vezes não reconheces em ti e que eu e a mana herdamos :)

Let's go to sleep with clearer heads
and hearts too big to fit out beds
and maybe we won't feel so alone
before we turn to stone


Amo-te, por me saberes, por me seres, por me fazers. Amo-te.

Xaninha disse...

P.S. Venham mais noites destas que me libertam a alma (:

Davi(d) disse...

Parabéns a ele Tani :D

hoje não li o texto, já é tarde para mim. amanhã leio com atenção *

Pedro Antônio disse...

Que delícia o seu blog!

:)


Obrigado pela visita carinhosa!

Abração!

Pedro Antônio

Mara disse...

Acho que fui um dos melhores teus que li até agora.
Uma delícia!

e esta frase:
«E mais corações virão, sinto-o no vento.»

olha...nem sei que te diga.
muito bom mesmo ;)

F. disse...

Que texto maravilhoso Tani :)

JO disse...

está tão bonito. :')

Madu disse...

Tani, já não te visitava há tanto tempo! Está tão bonito o texto, que nem sei bem o que dizer também:')

Angela Ferraz disse...

não sei sei é suposto sorrir pelo carinho todo que demonstras ou chorar como uma criança pequena pelo desespero de alguém que perdeu o amor de uma vida

Yang, C. disse...

Foi em cima do telhado que olhei para o céu e acreditei que talvez fosse capaz de conciliar a ciência com outras crenças. Sentir não é mais que isso... Ter outras crenças para além da ciência, e talvez por isso me assuste, o sentimento, por ser tão subjectivo. Tenho menos medo quando deito a cabeça no teu colo. Poder deixar escorrer a lágrima e receber o teu amor, o teu imenso amor que me parece nem saberes existir. Recebo-o sempre de braços abertos. E os números? Os números são refúgios, por não sabermos bem em que acreditar. Desses temos certezas, e é por isso que me sossegam, a mim e a muitos outros. Tal como toda a ciência.
Tu e a mana, vocês não são ciência. Mas sossegam o meu coraação como ninguém. (Mesmo que eu não vos diga. Palavras não são o meu forte.)

I would hug you now, for endless time.

Giovanna disse...

Visitei teu blog e gostei,li e amei.. virei mais vezes, bj Giovanna

vanessa disse...

Querida Tânia, como é bom ver jovens hoje em dia, escreverem desta maneira,descobri-te aqui não foi por acaso, mas sim porque tens um tio muito babado (Jorge Faria), que me ilucidou sobre a fantástica arte que divulgas...Sei também que estás de partida para Londres, estás realmente de parabéns pois sou alguem com as tuas capacidades e amor pela arte de representar devem ter oportunidades como estas...Em meu nome e do teu tio um grande beijinho, muitas felicidades e ganhas-te mais uma fã... Não descures nunca este Bloge pois estarei sempre aqui para o visitar e ler as delicias que escreves...Beijinhos e boa viagem...

See you around...

Vanessa e Jorge

vanessa disse...

Minha querida no ultimo comentário que te deixei quando digo "pois sou alguem com as tuas capacidades queria dizer "só alguem com as tuas capacidades" desculpa o erro querida...Beijinhos

 

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