segunda-feira, 31 de agosto de 2009

We're done.



Sabes que mais? Cala-te! Tu e a tua carreira com um futuro brilhante! Tu e os teus contactos perfeitos, as festas perfeitas, cheias de glamour e diversão. Sempre me tomaste por menor, sempre me tomaste como certa, sempre me tomaste como uma expectadora impaciente por mais um trabalho do grande génio.
Sabes que mais? O grande génio agora vou ser eu. Agora vou ser eu a mostrar ao mundo um trabalho brilhante, a ver o meu nome destacar-se na boca de todos menos na tua. Porque eu sei que não serás, nunca foste, capaz de admitir o meu sucesso. De admitir que tinha mais oportunidades que tu e só não as aproveitei até ao seu máximo para não te ofuscar.
Sabes que mais? Estou farta de ser a mulher que nos bastidores cuidava da tua e da minha vida. Já não consigo mais ouvir-te falar de projectos ambiciosos que nunca terão asas para voar. Da lista de todos os que admiras e conheces, a lista dos Grandes, onde o meu nome não está sequer em ultimo lugar.
Sabes que mais? Já sei que essa tua aparente indiferença relativa ao meu sucesso não passa de uma máscara para esconder essa tão feia inveja. Faz bom proveito dela porque we're done.

sábado, 29 de agosto de 2009

Por uma noite.

Pudesse eu ser muitas individualmente e hoje era a Mulher Fatal. Só por uma noite, escolhia ter-te rendido ao amor carnal que de Amor pode ter muito. Por uma noite, curávamos a saudade de todas as aventuras prometidas na ultima noite com sabor a primeira.





Pudesse eu ser a tua Mulher Fatal esta noite e a nossa noite não tinha fim.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Seriously

Mexo o café e como um chocolate no fim enquanto observo os passeadores da vida. Cada tem os seus pequenos prazeres. Os meus não são nem o café nem o chocolate. Esses são pequenos demais comparados com a sensação boa que me inunda quando me posso recostar assim, sem pressas nem tempos, e ver quem passeia a sua vida pela trela ou quem se deixa passear pela vida.
Numa parte da cidade, um casal de velhos amantes passeia o seu amor adormecido na palma das mãos. Já não se lembravam de onde o tinham guardado, em que gaveta é que tinham deixado, tapado por preocupações com contas em atraso, propinas, horarios e anos de monotonia de casamento. Encontraram-no numa saída ao teatro, puxaram-lhe o lustre e levaram-no a passear (as pessoas gostam sempre de mostrar o que tem de mais bonito quando vão a rua).
A passar pela mesma rua, a observar este amor antigo e iluminado pelas luzes do teatro, estava uma jovem, early twenties, a passear o coração cansado de um amor inútil. Os amores começam a ser inúteis quando já não aquecem o coração, quando no lugar da paixão está um vazio que nem é amor nem é conforto bom nem é nada. É memória. E ao lado dessa memória mora a desilusão, a confusão, a saudade, o desprezo. A jovem passeava o ramo de rosas que recebeu de coração vazio para coração ainda mais vazio e uma esperança apagada que da próxima vez, em vez de um ramo de rosas que nem sequer gostava, viesse um convite para viver outras vidas, de coração mais cheio, no teatro tão iluminado.
E em tão iluminado teatro, ninguém diria estar um coração em reboliço. Mais uma menina, desta vez menina mesmo de idade, que se sentava na cadeira da plateia pela mão da irmã mais velha que lhe segurava o coração que em reboliço jurava não estar. Ela tinha dado o coração todo, a troco de promessas de futuros felizes em terras que não constavam do mapa, e tinha-o recebido torcido. Minha menina, nunca te ensinaram a não brincares com artistas? Eles brincam contigo de volta.
Para ser justa, ele, que estava do outro lado da plateia, ofuscado por luzes de espelhos e o glamour habitual dos bastidores, também não tinha saído a ganhar. Artista ou não, ele também entregou o coração à menina, a troco de promessas de futuros felizes em terras que não constavam do mapa, e também voltou ao palco com ele torcido. Para ser justa, a culpa não foi de ninguém. Foi da vida, essa vadia que, quando não leva trela para passear, se diverte a andar por aí a rodopiar de peito em peito, disfarçando-se de amor eterno.
Quanto a mim, deixei-me de acreditar em amores eternos, há demasiado teatro tão mal encenado por essas ruas fora que só me resta saborear o meu chocolate negro. E entretanto, penso sobre o dia em que acreditei que podia domar a vida. Ingénua que fui. Tentei, acreditei mesmo que a tinha numa trela bem apertada para agora ela me aparecer a pregar uma partida pelas costas e eu só pensar: Seriously?

domingo, 16 de agosto de 2009

Devaneios de Meia-Noite.

O teu tabaco é o meu chá, com boa musica. A melancolia que a ti te sabe o fumo e o café, a mim sabe-me a menta e açúcar. E, envolta nessa neblina, nesse espírito, escrevo-te, para dizer-te que hoje senti falta de ouvir a tua voz a afagar-me a alma com a mesma delicadeza com que passeavas a mão pela minha cara, como se quisesses gravar na ponta dos dedos o que sabias perder em pouco tempo.
Parassem os relógios por nós, pudesse o mundo a nossa volta adormecer profundamente, e voariam as nossas almas, deixando os cadáveres inertes para trás e unindo-se no plano intemporal e irracional a que pertence o nosso amor.
A melancolia, hoje, mais do que a menta e açúcar, sabe-me á tua recordação, sabe-me a partida, sabe-me a regresso. Podia saber-me "aquele gosto amargo que temos quando acabamos um livro que gostamos muito". Mas sabe-me ao gosto doce de saber haver mais um livro a ser editado com a continuação da história.
O chá esfria, a noite já assentou e eu vou dormir, deitar-me com a cabeça mais limpa e o coração mais cheio de ti.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Música de filme, ao luar.

Os seus dedos duros de pressionar as cordas da guitarra ao som da minha voz nos dias anteriores agarravam agora os meus, gelados como aquela noite. O escuro trouxe com ele o silêncio e o cansaço a todos os outros corpos menos aos nossos. Os nossos, esses vibravam com o calor do coração, que segurávamos no enlace das mãos. A alma, essa que ficava tão fácil de entregar, cada vez mais fácil, era murmurada ali, com a lua como testemunha.
Enrolamos, só mais um bocadinho, só porque as mãos já não procuravam mãos mas também não sabiam ao certo o que procuravam. O coração, no entanto, sabia. O coração já se tinha denunciado nos olhares demorados por cima da guitarra a cada frase doce, a cada palavra chave.
O coração denunciou-os. O azul e o verde fundiram-se para deixar claro que eram os lábios que os lábios procuravam e a lua guardou-os enquanto encontravam a sintonia do peito e do corpo. No chão encontramos o sitio onde as mãos se dão. Nele encontrei a côr de casa.
No dia seguinte, quando a lua já tinha ido guardar outros amantes, olhei para ele e só consegui pensar "que pena não poder ficar, és quente quando a luz te traz". E parti. Com o gosto doce de rebuçado.
 

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