quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Seriously

Mexo o café e como um chocolate no fim enquanto observo os passeadores da vida. Cada tem os seus pequenos prazeres. Os meus não são nem o café nem o chocolate. Esses são pequenos demais comparados com a sensação boa que me inunda quando me posso recostar assim, sem pressas nem tempos, e ver quem passeia a sua vida pela trela ou quem se deixa passear pela vida.
Numa parte da cidade, um casal de velhos amantes passeia o seu amor adormecido na palma das mãos. Já não se lembravam de onde o tinham guardado, em que gaveta é que tinham deixado, tapado por preocupações com contas em atraso, propinas, horarios e anos de monotonia de casamento. Encontraram-no numa saída ao teatro, puxaram-lhe o lustre e levaram-no a passear (as pessoas gostam sempre de mostrar o que tem de mais bonito quando vão a rua).
A passar pela mesma rua, a observar este amor antigo e iluminado pelas luzes do teatro, estava uma jovem, early twenties, a passear o coração cansado de um amor inútil. Os amores começam a ser inúteis quando já não aquecem o coração, quando no lugar da paixão está um vazio que nem é amor nem é conforto bom nem é nada. É memória. E ao lado dessa memória mora a desilusão, a confusão, a saudade, o desprezo. A jovem passeava o ramo de rosas que recebeu de coração vazio para coração ainda mais vazio e uma esperança apagada que da próxima vez, em vez de um ramo de rosas que nem sequer gostava, viesse um convite para viver outras vidas, de coração mais cheio, no teatro tão iluminado.
E em tão iluminado teatro, ninguém diria estar um coração em reboliço. Mais uma menina, desta vez menina mesmo de idade, que se sentava na cadeira da plateia pela mão da irmã mais velha que lhe segurava o coração que em reboliço jurava não estar. Ela tinha dado o coração todo, a troco de promessas de futuros felizes em terras que não constavam do mapa, e tinha-o recebido torcido. Minha menina, nunca te ensinaram a não brincares com artistas? Eles brincam contigo de volta.
Para ser justa, ele, que estava do outro lado da plateia, ofuscado por luzes de espelhos e o glamour habitual dos bastidores, também não tinha saído a ganhar. Artista ou não, ele também entregou o coração à menina, a troco de promessas de futuros felizes em terras que não constavam do mapa, e também voltou ao palco com ele torcido. Para ser justa, a culpa não foi de ninguém. Foi da vida, essa vadia que, quando não leva trela para passear, se diverte a andar por aí a rodopiar de peito em peito, disfarçando-se de amor eterno.
Quanto a mim, deixei-me de acreditar em amores eternos, há demasiado teatro tão mal encenado por essas ruas fora que só me resta saborear o meu chocolate negro. E entretanto, penso sobre o dia em que acreditei que podia domar a vida. Ingénua que fui. Tentei, acreditei mesmo que a tinha numa trela bem apertada para agora ela me aparecer a pregar uma partida pelas costas e eu só pensar: Seriously?

10 rascunhos alheios:

Marianinha disse...

Acredites no amor eterno ou não, ensinaste-me que o amor é isso mesmo: dar o coração a troco de promessas de futuros felizes em terras que não constavam do mapa e por vezes recebê-lo torcido, porque estás do meu lado para que o peito deixe de doer.

Oh mana :'
(já te dei agora muitos abraços e já me olhaste muitos nos olhos - que sempre disseram muita coisa [tinha de fazer uma joke] - para saberes o que estou a pensar)
amo-te *

Débra disse...

oh meu deus Tania este texto está lindo.
Tu escreves mesmo bem :)
beijinho *

Beatriz Cró disse...

Há dias em que o chocolate preto é uma grande companhia.

Margarida disse...

Minha menina, nunca te ensinaram a não brincares com artistas? Eles brincam contigo de volta.

devo ser essa menina. mas o chocolate preto e a ingenuidade, até que ajudam a tratar a vida como a uma companheira de quarto. não que ela nos trate assim : )

F. disse...

Que bonito :')

Meus Raios de Sol, como gosto de vocês!

Mara disse...

E custa este teu reconhecimento, não custa?

beijinho

Chiquitita disse...

Não acredito em amores eternos, mas sim num eterno amor.

disse...

está lindo! tão lindo!
beijinhos.

messy disse...

adorei (: bela escrita por aqui*

Ot disse...

Estou perplexa. Parabéns! Escreves mesmo mas mesmo bem. Continua assim que vais longe. ;)

(Eu prefiro chocolate branco!)

 

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