segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Everything I know.

Parei a frente da porta, e senti o peso da mala na mão esquerda. O peso de uma vida, parece-me. Pouso a mala no chão e olho a casa. Pintura branca descascada por toda a parede, o caminho de terra batida, o cheiro a palha e suor, o barulho do tractor ao fundo e um outro mugido de vez em quando. Olho para dentro e vejo-o, sentado e olhar fixo na janela. Tem a cara toda talhada pelo tempo e quando era miúda nunca percebi como tem tantas rugas se nunca sorriu muito. Engraçada a imagem que tinha dele na altura. Engraçado como nunca o tinha conhecido até agora. Respirei fundo e entrei. Os olhos dele levantam-se para mim, calmos, sem surpresa nenhuma. Depois repara na mala:
-Olá Nina. Já vais pó laró outra vez?
-É Bu.
-Pra donde vais?
-Não sei muito bem ainda.
-Atão?
O meu avô e eu nunca nos demos muito bem. Ou por outra, eu e o meu avô nunca nos conhecemos muito bem e então eu achava que ele não gostava de mim. Um dia, num jantar qualquer de família, ele perguntou-me como andava a minha vida, queria saber o que é que eu estudava mesmo. Daí veio um paleio desenfreado anormal para alguém de quase 80 anos. No meio dessa conversa ele disse-me "Sabes Nina, quando tinha uns 14 anos eu andava com os outros cachopos e eles é que tinham as moças todas e eu ficava a ver. E depois quando tinha lá para 18 anos, uma noite fui ao bailarico e tava lá a Leninha. Era a moça mais bonita da aldeia, sabes? E ela aceitou vir dar uma volta na praia comigo. E começamos assim no namoro. Um dia eu fui visita-la e ela disse-me que tinha uma consulta no médico, para me ir embora. Umas horas depois encontrei-a no bailarico com outro amigo meu. Foi a única moça que buliu com o meu coração e desde aí que nunca mais chorei por mulher nenhuma." A minha avó não se chama Leninha e ele disse que a minha avó surgiu porque tinha que ser, que o pai já o olhava de lado por ele não ter assentado e "construído vida que se visse". Olhou-me bem dentro dos olhos, olhos gastos com olhos avidos por vida, e disse-me que o mais se arrependia foi ter-se preso á terra, assentado e quando deu por ele, já não tinha espaço para ver o mundo, nem para bailaricos, nem para caminhadas a beira-mar. Tinha uma mulher, sete filhos, três dúzias de galinhas e uma dezena de vacas como vida.
Nesse mesmo jantar familiar toda a família se reuniu a volta da mais recente grávida (é o que acontece em famílias grandes, há sempre alguém à espera de bebé) e a meio de gargalhadas e sorrisos ternurentos alguém disse "Agora a próxima é a Nina. Não é? Como vai o namorado?" e "E isso é pa casamento? Olha que a família dele é grande amiga da nossa. Tão simpático aquele rapaz, tão bem educado" e coisas que tais que me prenderam o peito.
-Acho que vou ver o mundo Bú.
-Quando voltas?
-Não sei.
-Os teus pais sabem?
-Não. Eu não quero isto para mim Bú.
-Não... E o rapaz, como é que ele se chama?
-Ele não é a minha Leninha. E eu gostava de a encontrar, sabes? Nem que seja para ter alguma coisa pa contar. Tenho que ter uma historia para contar aos meus netos que lhes mostre que existe uma Leninha para todos.
-Só tenho pena de não estar lá para te ver feliz quando o encontrares. Boa sorte.
-Obrigada Bú. Vou precisar.

4 rascunhos alheios:

Luis disse...

Espectacular.*

Ana Carolina disse...

Muito bom :)*

Mara disse...

Achei do melhor.
Uma ternura*

F. disse...

Não tens noção do quanto amei este texto!

 

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