domingo, 16 de maio de 2010

Delirio do amor.

O meu corpo reclama, todos os tendoes gritam comigo e exigem alguma coisa que nao lhes posso dar. Esta a avariar-se e eu continuo a mandar liquidos e pequenas pilulas la para dentro na esperanca que ele se contente, so ate eu encontrar uma solucao mais permanente. Mas nao, o meu corpo nao esta em sintonia com a minha alma e arrasta-a para baixo com ele. Unem-se os dois e nao ha saida: Ligam o projector e eu nao tenho poder nenhum. Eu, que ja nem existo, quem sou eu se nao tenho a minha alma nem o meu corpo? Ligam o projector e comecam as imagens a passar-me diante dos olhos. As imagens que sou obrigada a ver e nao quero.
Eu, numa caixa muito colorida e patrocinada por imensas marcas registadas. Um produto para satisfacao do consumidor, ali a espera de ser comprado e usado a bel-prazer de quem me quiser manusear.
Eu, sozinha num apartamento frio numa qualquer cidade fria que me exige energias naturais que nao tenho e tem que ser substituidas por uma artificialidade que habita no meu corpo e responde ao meu nome.
Eu, sem saber abracar com coracao, sem saber amar sem pedir nada em troca, sem saber ser filha do Amor.
Eu, sem raízes em lado nenhum, sem saber do que materia sou feita.
Eu, raptada por um estranho qualquer que me diz que vai ficar tudo bem enquanto eu grito na mala do carro por alguem que me venha buscar. Ele continua com o pe a fundo no acelerador e diz-me que ja nao posso voltar atras e ninguem vai saber onde estou.

Acordo a solucar e afinal nao tenho amarras nos pulsos nem nos tornozelos. Deito agua na cara, olho-me no espelho e o sol ja nao brilha no meu cabelo nem há vida nos olhos.
O fado toca la ao longe a lembrar-me de noites quentes com cheiro a sardinhas assadas, vozes muito altas e palavras cheias e familiares. O meu espirito quer voar para la mas o corpo nao deixa, esta presa nesta corpo doente, intoxicado por este ar sem sol, sem vida, sem cor. Levanto o olhar e vejo o Destino a sorrir. Olho-o nos olhos e imploro-lhe que me devolva o espirito que me roubou e leva ao peito aprisionado numa caixinha. Ele ri-se perdidamente, num delirio que me rasga qualquer esperanca de voltar a ser e caio atordoada no chão. Ao fundo, toca o fado, cantado a rir e penso que tudo isto pode nao passar de um delirio do amor.
 

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