quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Time to send someone away.

Fiquei surpreendida com a capacidade que ainda tenho de me surpreender - quanto a isso não me posso queixar.

Olhei-o nos olhos azuis, tão parecidos com os meus, e li-lhe aqueles lábios desenhados que me tinham atraído desde o momento em que o ouvi rir. A minha irmã tem os lábios assim, como desenhados na cara de uma boneca de porcelana e eu sempre lhe invejei a lotaria genética que não me tocou a mim. Ele tem os lábios da minha irmã e os meus olhos. Os lábios da minha irmã desenharam no ar um conjunto de palavras que me caíram como um estalo numa criança distraída. A Criança deu por si a verter lágrimas sem saber porquê e a gritar a injustiça do golpe que não fez nada para merecer. Os olhos azuis decidiram que era o seu direito decidir e o meu azul que se conformasse. A Criança pegou no orgulho ferido de Mulher, disse adeus e saiu porta fora, em direcção a uma outra Mulher que lhe ensinasse a lamber as feridas. Ou mais importante, que lhe explicasse porque é que as feridas lá estavam.
A outra, a amiga e mãe e irmã mais velha, todas encontrada numa Australiana energética que se fez família em três tempos, sentou uma Eu confusa e explicou uma coisa ou duas sobre o seu entendimento de relações. Eu engoli, levei com outras quantas chapadas que me fizeram bem e tirei as minhas conclusões. Embrulhei aquilo tudo e levei para a cama, agora metade vazia, enquanto ouvia o John Mayer a cantar na minha cabeça "Our love was confortable and so broken in".

Nunca o tinha escrito porque não o queria romantizar. Porque tinha a noção de que todos os que tinham passado pelo meu livro antes, tinham sido feitos personagens mais heróicas do que verdadeiras e ele não ia durar muito nesta história. Ele não fugiu quando lhe pus todas as placas do "run as fast as you can and don't ever look back" mas "ele não vai durar muito". Ele segurou-me a mão quando o mandei embora vezes sem conta mas "ele não vai durar muito". Ele quebrou, pedra a pedra, o mural que construí para que não vissem por detrás da feminista hirta mas "ele não vai durar muito". O medo de perder bloqueava a ideia de sequer o ter e não me apercebi que já tinha pisado essa linha à alguma tempo. Eu já não estava em controlo de nada do que se passava ali mas o meu coração racional continuava a gritar que sim. A gritar tão alto que quando o estalo dado pelos lábios desenhados o calou, eu não soube para onde me virar.

O menino dos olhos quase tão azuis como os meus e os lábios desenhados foi feito personagem. A vida aconteceu, como acontece sempre, e o capítulo foi encerrado antes de a autora se aperceber que ele era herói. - Estava na altura de seres feito personagem principal. Por um capítulo que seja.




3 rascunhos alheios:

MJ disse...

Às vezes a realidade só cai em nós no final do acto, como o cair do pano em palco.
Ela que não seja sempre tão forçosamente distante. Pra racional chegam os cientistas.

Alexandra Côrte-Real disse...

A personagem principal és sempre tu, T. Mas ele precisava de facto do seu capitulo e fico contente que lhe tenhas finalmente feito jus como fazes sempre que passas a palavras o que sentes.

M. disse...

"Tom: And what happened?
Summer: What always happens. Life happened."

life happened e ele fez parte dela e fazia falta fazer parte do teu livro também. *

 

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